terça-feira, 30 de julho de 2013

ela.

vamos ao mesmo parque desde que a maria nasceu. nos dias que não são diferentes estamos lá. todas as manhãs e todas as tardes. "os meninos" sabem o nome dela.
ela sente-se em casa no parque. há dias em que fica sozinha a apanhar folhas e a observar os pombos.  há outros em que brinca com "os meninos". todas a manhãs a maria separa brinquedos para levar para o parque. e vai dizendo o nome dos meninos. há sempre um brinquedo que ela nesse dia não vai partilhar. eu não a obrigo: é o seu brinquedo especial do dia.
também leva bolachas para todos e fica feliz quando as distribui.
no parque a maria é a que se ouve mais alto. é a que grita mais. a que dá mais gargalhadas. a que corre mais. é a menina que chama por todos. não se importa quando a ignoram. nem quando cai.
eu observo-a todos os dias e penso. e desejo: espero que ela seja na vida como é no parque:
não é sempre a criança mais inteligente, nem a mais bem vestida. não é certamente a mais rica, nem a mais destemida: mas parece ser sempre a mais feliz.

ela é livre.
espontânea.
alegre.
generosa.
ela é livre.
 

 

uma menina e um chapéu.

 



 
 


domingo, 28 de julho de 2013

em casa.

os lugares onde somos felizes também nos curam.
acredito nisso. acredito que quando estamos em casa, nos sentimos logo melhores.


 



sexta-feira, 26 de julho de 2013

a boa notícia.

foi uma boa notícia: todos os dias a maria pede para ir a praia. pede quando se lembra, pede quando vê na televisão, pede quando a vizinha pergunta vais à praia maria? pede quando fala com o pai no skype. por isso no dia em que o pai disse que eu ia com os dois passar uma semana de férias na praia eu fiquei feliz por ela. e contei-lhe. e todos os dias quando acordava a maria perguntava se era hoje. e esperámos ansiosas pelo dia. 
antecipei momentos felizes na minha cabeça. fotografias para enviar ao pai: o miguel sentado na areia dentro de uma barraca às riscas, a maria ao lado de uma nazarena, os dois a brincar com pás e baldes, a maria a fugir das ondas, a comer gelados à noite, a fazer bolas de sabão na praia deserta.
mas não. não. tivemos apenas muitas horas de choro. uma viagem de ambulância. horas afastados. sustos. uma gastroenterite. uma amigdalite. um regresso antecipado. e eu fiquei triste, cansada, impaciente, nervosa, frustrada. fiquei triste.

e não tirei uma única fotografia.
os bons momentos aproveitei-os de mãos livres. de coração cheio. são fotografias na minha memória que um dia lhes vou contar. os maus vão ser esquecidos: não os quero.

o dia em que regressámos ao conforto da nossa casa foi o dia em que fomos a melhores médicos. ele vai ficar bem. ele já está melhor. no dia em que o vi a recuperar eu fiquei feliz por ele.
e a fotografia que enviei ao pai foi a mais bonita.
a única que eu queria tirar. a que ele queria ver.
um menino feliz, a recuperar.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

há índios no parque.

hoje ela encontrou a sua super roupa de índio. e achou que era um bom dia para a vestir.
não há dia certo para se ser um índio: podemos sempre ser o que quisermos.
só precisamos da roupa certa.
 



 






terça-feira, 16 de julho de 2013

"mais crescida".

eles têm esta capacidade única de nos surpreender.
pensei que ainda era cedo, que ela não estava pronta. quis tentar, mas achei que ela não estava pronta.
tem 2 anos e 2 meses. pesquisei várias abordagens, escolhi uma. tinha muitas regras, quebrei-as todas.
no primeiro dia fiquei surpresa, no segundo orgulhosa, no terceiro quis desistir. no terceiro dia ela chorou todas as vezes que falhou. eu quis desistir. mas não houve mais dias assim.
não houve mais acidentes, só conquistas.
ela está feliz porque está "mais crescida". eu estou um bocadinho triste porque ela está a crescer.
afinal havia mesmo uma pessoa que não estava pronta para o desfralde, mas não era a maria.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

os dias.

passo o dia sozinha com eles. às vezes temos visitas. a maior do tempo somos só os 3.
a maior parte do dia sou eu a tratar deles, a brincar com eles, a arrumar a casa, a brincar com eles. acordo com um de cada lado, faço tudo outra vez e no fim, quando já é noite adormeço os dois. brincamos com a lanterna, deitados na cama, no quarto escuro. eles riem-se. canto. adormecem. um de cada lado. a maior parte das vezes adormeço também. todos os dias: é assim quase todos os dias.
mas também há os outros dias. os dias em que eu acordo e é difícil. os dias em que as manhãs parecem longas e pesadas. os dias em que sinto falta dele aqui: a trocar fraldas. a fazer as papas. a ser o pai. e é nesses dias que eu sou mais mãe. que faço o que as mães fazem: olho para eles, estico os meus dedos e encho-os de cócegas. muitas e muitas cócegas: a felicidade na ponta dos dedos. cócegas. e só páro quando a única coisa que se ouve na minha cabeça são as gargalhadas deles. já não se ouve a saudade, nem tristeza, não há incertezas, nem cansaço. só as gargalhadas deles.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

duas caixas de cartão.

o calor tem sido insuportável. só à noite é que vamos passear e mesmo assim está quente. precisávamos de nos entreter com alguma coisa. e foi assim que decidi aproveitar a sesta deles e as caixas que o avô nos deu. e num par de horas arranjei uma cozinha à maria. sempre quis que ela tivesse uma cozinha para brincar. agora só falta pendurar um pano da loiça e umas panelas. uns botões para o fogão feitos de tampas de coca-cola. e um relógio, uma cozinha precisa sempre de um relógio. 
 
 
 
 






maria, cara de pintarola.

caras sujas de chocolate são sempre lindas.
e felizes.
 
 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

o segundo filho.

o dia em que o miguel nasceu foi o dia em que eu me separei da maria pela primeira vez. no dia em que eu acordei e disse "é hoje" havia duas coisas na minha cabeça: que nasça saudável. que a maria não sinta a minha falta. e fomos no carro e chovia e estava trânsito e estava quase. e as dores. e eu, de mão dada com a maria, fingia que estava tudo bem. a maria tinha 17 meses: era o meu bebé. nunca em momento algum daquele dia a maria me saíu do pensamento. quando as dores aumentaram pensei nela, quando disseram que tinha de fazer mais força pensei nela, quando chorei com as dores pensei nela. foi ela que me deu a força que precisava naquele momento. e depois disseram: é um rapazinho. e meteram o menino em cima de mim. e eu chorei. chorei muito. e toquei-lhe. e enchi de amor o peito que ele aqueceu. e sussurei-lhe ao ouvido coisas que só ele sabe. e depois disseram que iamos para outra sala. e o pai foi dizer a todos que era um menino.
e eu fiquei inquieta a pensar na maria.
a minha menina.

quando o miguel nasceu eu já sabia o que era o amor por um filho. quando o miguel nasceu eu não o amava como amava a maria. tinha-lhe um amor pequenino, se pequeno pode ser o amor. era um amor diferente. e se para a maioria das mães isto pode ser estranho para mim fazia todo o sentido. eu já sabia que um dia ia amar o miguel da mesma maneira que amava a maria: total e infinita. eu já sabia que o amor ia crescer. eu sabia que vinha com o tempo. e o tempo não demora. a diferença entre um primeiro e um segundo filho para mim foi esta: eu já sabia que se podia amar ainda mais. mais do que quando está dentro de nós e nos dá pontapés. mais do que quando nasce e é tão pequenino que temos medo de o magoar. mais, sempre mais.
hoje eu amo o miguel assim: daqui ao infinito. tanto quanto o amor permite.
é o meu menino.

o meu menino.