segunda-feira, 19 de agosto de 2013

um dói-dói.

a maria estava sentada no chão, aborrecida.
perguntei-lhe se me queria ajudar. levantou-se num salto: sim!
mostrei-lhe o estendal cheio de roupa do mano.
pedi-lhe para a colocar na cesta.
ela pegou nas calças e eu, a lavar a loiça, olhei para o miguel sentado na cadeira a roer pão.
disse-lhe: olha miguel! já viste? a maria hoje vai trabalhar.
ela começou a chorar.
perguntei-lhe o que tinha. ela chorava.
sorri. achei engraçado.
disse: não gostas de trabalhar é maria? vai brincar.
e ela foi.

quando acabei de lavar a loiça peguei nele e fomos brincar com ela.
ela era a doutora e dava o remédio ao mano. e media-lhe a febre.
e depois ela disse: a maía não vai trabalhar mamã.
olhei para ela. ela continuou: a maía fica aqui, com a mamã. e o mano.

e eu percebi.
sempre que ela pergunta eu digo-lhe.
digo: o papá foi trabalhar.

para ela trabalhar é isso: é ir embora.
e depois continuou: a dar injecções. a auscultar.
ela surpreende-me muitas vezes.
desta vez também fiquei triste. segurei as minhas lágrimas.
disse-lhe só: doutora, tenho um dói-dói na barriga.

e ela sorriu.


domingo, 18 de agosto de 2013

cúcú.

a pequena maria descobriu que se se esconder do mano ele solta gargalhadas.
e escondeu-se muitas e muitas vezes. e ele riu-se muito alto.
e ela quando ficou cansada riu-se também: atirou-se para o chão e riu-se muito.
e depois deu um suspiro bem fundo. e levantou-se para o beijar.


 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

sofia.

quando estivemos de férias as coisas não correram bem.
foram dias difíceis.
e eu contei-os aqui.
naqueles dias eu contei com a ajuda de uma amiga: ela estava lá de férias.
ela brincou com a maria na praia e cuidou dela quando eu tive de cuidar dele.
ela tirou fotografias. eu não sabia que ela tinha guardado os nossos momentos.
há uma fotografia do miguel dentro de uma tenda às riscas no dia em saímos mais cedo da praia.
há uma fotografia da maria ao lado de uma nazarena no dia em que eu fui com ele numa ambulância.
a maria estava feliz. a brincar.
a minha amiga enviou-me as fotografias: obrigada. pelas memórias, por estares presente.
obrigada.







segunda-feira, 12 de agosto de 2013

19.

às 19 horas. é sempre a hora de sair do parque.
porque depois há mais horas: a hora dos banhos, a hora de jantar, a hora dos pijamas.
mas neste dia ficámos. não havia horas.
só calor, pincéis e folhas a cair em cima de nós.

 


 









naquele dia.

no dia em que ele começou a gatinhar fomos ao parque.
no dia em que ele começou a gatinhar a maria brincou num comboio.
no dia em que ele começou a gatinhar ele sentiu a relvada molhada.
no dia em que ele começou a gatinhar a maria comeu um gelado antes do almoço.
no dia em que ele começou a gatinhar o avô levou-nos a ver os aviões.
no dia em que ele começou a gatinhar ele teve um sorriso diferente.
 
ele é um bocadinho mais independente.
e um bocadinho mais feliz.

 

 
 



 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

uma história triste.

é uma história triste.

uns dias depois do miguel nascer deitei-me na cama a ver televisão. a maria e o miguel estavam a dormir ao meu lado: eram os dois pequeninos. mais pequeninos.
ele estava na sala: ele não me deixava ver este programa. sabe que são histórias que me deixam triste e me fazem chorar. mas naquele dia eu vi. e há histórias que têm este poder: nunca mais as esquecemos.

ela tinha 2 anos.
naquele dia ela deixou cair uma caixa de cereais. o padrasto achou que era o dia em que ela ia ser disciplinada. a mãe concordou. ela foi espancada com o cinto. a cabeça dela foi mantida debaixo de água. ele puxou-a pelos cabelos e atirou o corpo dela contra a parede. eles fizeram isto a esta menina. fizeram isto toda a manhã e toda a tarde: foi espancada durante todo o dia.
ela morreu nos braços da mãe. a mesma que a devia ter protegido. amado.

durante muito tempo não fui capaz de esquecer esta história.
o rosto desta menina.
tive pesadelos. chorei. afectou-me.

e isto foi o mais triste. o que mais me comoveu:

perguntaram à mãe. na entrevista ela estava calma e perguntaram-lhe. nos momentos em que a criança não estava a ser abusada: estava em silêncio? estava quieta? falava?
falava. a mãe disse que ela falava: she kept repeating: i love you mommy, i love you mommy.
um dia inteiro. não foi um acto espontâneo. não foi um momento de loucura. foi um dia inteiro.
e uma criança: dependente. carinhosa. uma criança a ser como as crianças são: bondosas.

passou muito tempo desde que vi esta história: o miguel tinha acabado de nascer.
com o tempo não me lembrei mais. não sonhei mais com ela.
esta manhã ouvi um barulho. perguntei o que é que aconteceu.
e depois vi: a maria deixou cair uma caixa de cereais. lembrei-me.

a maria tem 2 anos.
ela começou a chorar e a colocá-los dentro da caixa.
eu disse-lhe: não faz mal.
ajoelhei-me: abraçei-a.
hoje quando abracei a maria estava a abraçar aquela menina.
a maria limpou a minha lágrima e repetiu: não faz mal mãe.


é uma história triste.

conto-a aqui porque era o que a avó desta menina pedia: contem a história dela.
denunciem maus-tratos. não a deixem ser esquecida. contem a história dela.

o nome dela era riley ann.
esta é a sua história.

http://riley-ann-sawyers.memory-of.com/About.aspx

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

um dia.

não tenho muitas fotografias de quando era pequena.
tenho muito poucas. gostava de ter mais.

tenho centenas de fotografias da maria e do miguel.
todos os dias tiro pelo menos uma. a maioria das vezes tiro muitas.
gosto de os sentar em cima da cama e tirar fotografias bonitas.
mas as melhores, as que eu gosto mais, não são essas: são as outras.
as que tiramos ao que é comum. a rotina. ao que é espontâneo.
ao que queriamos que durasse para sempre.
tiro muitas fotografias porque penso: eles vão crescer e vai ficar tudo para trás. vão ser as memórias deles.
são estes momentos: os que gostava que ele se lembrassem, os que espero nunca vir a esquecer.
não são as melhores fotografias. cortadas, desfocadas. mas são as que eu gosto mais.

tirem muitas fotografias.
tirem fotografias assim: por razão nenhuma.
um dia serão especiais.