segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ela tem uma voz.

passaram quase três meses desde que chegámos.
três meses é muito tempo quando não nos sentimos em casa.
passaram quase três meses. todas as manhãs quando me levanto, todas as noites quando me deito: pergunto-me: o que é que estamos aqui a fazer. os últimos dias têm sido os mais difíceis. eu e ele sabemos. não há paz. na nossa cabeça. no meu coração. todos os dias vemos nos nossos olhos o peso da nossa decisão.
passaram quase três meses e ela não me deixa esquecer. ela tem voz. o tempo transformou-a numa menina que faz perguntas, que tem opinião. o tempo mudou-a mas não a deixa esquecer. isto não foi uma escolha dela. ninguém lhe perguntou. ela vai adaptar-se, diziam. a adaptação é difícil: acordamos tarde e ainda é de noite, almoçamos cedo e já está de noite. as tardes frias e escuras passam-se em casa. na rua andamos devagar para não escorregar no gelo. ela pede sempre para vestir uma roupa diferente: está demasiado frio. não há horas intermináveis no parque. não há o sol a bater-nos na cara. não há a inês para lhe dar a mão e correrem juntas. a adaptação é difícil. todos os dias ela pergunta se já podemos ir para casa. todos os dias pergunto-me o que é que estamos aqui a fazer.

ela pediu uma árvore de natal. disse-lhe que havia uma na outra casa. que iamos de avião. que lá é que havia natal. ela percebe o natal: que vai haver presentes. que vai haver uma árvore com luzes e bolas. que vai haver doces. todas as manhãs quando lhe digo que o natal já está quase a chegar ela pergunta: já vamos para casa no avião? todas as manhãs quando lhe digo que o natal está quase a chegar eu penso: por favor pede presentes. pede presentes.
ela tem 2 anos. meninas de 2 anos deviam pedir presentes.

decidimos ir a casa no natal: vai aquecer os nossos corações.
a minha mãe telefona-me: pergunta-me sempre: do que é que tens mais saudades?
digo: de nada. digo: café. castanhas assadas. bolas de berlim. do sol.
não tenho saudades de nenhuma dessas coisas. tenho saudades de ver a minha filha a correr. tenho saudades de a ver de vestido. tenho saudades de vê-la a brincar com outras crianças. de gargalhadas altas no meio da rua. de a deixar brincar na rua até à hora de jantar. de a ver conversar com as vizinhas.
as pessoas acham que eu devia estar feliz: num país rico. organizado. com um futuro brilhante para os meus filhos. como é que posso ser feliz: agora eu sei: há um lugar no mundo onde eu vi: a minha filha mais feliz. a ser mais criança. a brincar mais. a rir mais alto.
decidimos ir a casa no natal.
vou comprar-lhe um vestido.
vou levá-la ao parque.
e vou ouvir o que ela tem para me dizer.