quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ele.

estávamos no natal e eu era empregada de mesa. vivia numa casa que tinha o tamanho de um quarto. eu e ele estávamos juntos há poucos meses. naquele dia eu comecei a chorar: eu que trabalhava de manhã à noite. o cliente que me tratou mal. a minha máquina de lavar roupa que não funcionava. chorei e depois continuei a trabalhar. quando cheguei a casa vi a minha roupa alinhada num estendal improvisado. ele lavou-a toda: uma a uma. no dia que a maria nasceu, depois de as visitas sairem, ele olhou para mim: amo-te mais. disse-o depressa. olhei para ele e sorri, a maria pequenina deitada ao meu lado: não te amo mais, amo-te de maneira diferente. guardei aquelas palavras. quando o miguel nasceu o dinheiro não chegava para tudo. um dia fui ao martim moniz: vendi a libra de ouro que a minha avó me deu. ela deu-ma porque eu ia ser jornalista, eu vendi-a para pagar a luz. quando cheguei a casa dei-lhe o dinheiro: ele chorou. ele passou 6 meses sozinho: perdeu o dia em que ela fez 2 anos, o dia em que ele se sentou e gatinhou pela primeira vez. o dia em que ele deu a primeira gargalhada. ele perdeu tudo porque nos queria dar mais. melhor.
discutimos muito, quase todos os dias: pequenas coisas, nunca grandes. eu nunca atendo o telefone, não aviso que o detergente acabou, faço-lhes as vontades todas, perco as chaves, encho demasiado o saco do lixo. ele revira os olhos e bufa quando está impaciente: eu detesto. ele é insuportável quando tem fome. um dia ele acordou-me às 4 da manhã para me mostrar um peixe muito grande que tinha apanhado: tira-me uma fotografia. ele deixa as meias sujas no chão: ao lado da cama, todos os dias. ele esquece-se das datas. nunca me compra flores. mas também refila comigo porque eu ando descalça com este frio. porque não me sento para comer. ele deixa-me sempre um prato de sopa na prateleira de baixo: eu não chego lá acima. ele é sempre o primeiro a pedir desculpa. às vezes o único. ele chama-nos: meus amores.
nos últimos anos eu mudei. eu não sou a mesma, não sou como ele me conheceu: já não tenho abdominais definidos. as minhas sobrancelhas não estão sempre alinhadas. não uso maquilhagem ou lingerie com renda. não faço amor com ele todos os dias. não faço todas as semanas. não digo amo-te muitas vezes: antes dizia. eu mudei: sou sempre mãe, não sou sempre mulher. e sei que ele gosta de mim na mesma. que ele me vê para lá de todas estas coisas.
e eu também vejo. e amo-o ainda mais: sempre que o vejo a adormecê-los, a levá-los às cavalitas, a correr atrás deles no parque. sempre que ele traz no saco as bolachas que eles gostam, uma carteira de cromos para a maria. quando ele vai ao cinema ver a sininho e decora o nome das fadas. quando ele dá banho à maria e lhe desembaraça devagarinho os cabelos. quando o vejo a fazer ginástica no dia dos pais: a saltar mais alto que os outros. hoje, quando foi trabalhar com os olhos embargados. não desejo melhor para 2015, desejo o mesmo: 2014 foi um bom ano. juntos, com saúde. mas quero mais de nós: eu e ele. quero voltar a passear de mão dada. beijá-lo mais. dizer que o amo mais vezes. quero ser mais paciente, mais dedicada. quero casar com ele numa tarde quente de verão. 



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014.


foi um ano tão bom. e em 2015 não peço mais que isto: só o mesmo.
só mais momentos como estes.