quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

eles.


é isto: a felicidade é isto. estes momentos.
e eu guardei-os a todos.

[parque josé gomes ferreira]

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

no fim-de-semana.

a minha mãe ofereceu-me flores. levei-os ao martim moniz e celebrámos o ano novo chinês. ele foi à pesca. e vimos os dentes de vampiro do migas.

texto perdidos.

 1.

a minha avó fez ontem 91 anos.
fui visitá-la: cantei-lhe os parabéns ao ouvido. passei a minha mão pelos cabelos crespos dela: brancos em cima, loiros por baixo. disse-lhe que a maria e o miguel estavam lá fora. que tinha ido com eles à ginástica: a maria já sabe fazer bem as cambalhotas. contei-lhe coisas: sabias que o sócrates está preso. que está frio na rua. [será que me ouve?] que o miguel está constipado. a maria também.
[quando eu era pequenina passava dias em casa dela. ela nunca pegava em mim ao colo, me enchia de beijos ou me lia estórias de princesas. essa não era ela: nunca esperei isso dela. ela tinha uma gargalhada que me fazia rir. gozava com todos, implicava com tudo. nas festas cochichava aos meus ouvidos: que a outra era assim e assado. e ria-se dela de braços cruzados. o meu pai chamava-lhe a avó irra. fazia-nos bolo de cola-cola e arroz doce. tirava a placa para nos fazer rir. quando a maria nasceu passei a visitá-la menos vezes. ela começou a esquecer as coisas. os anos tornaram os abraços dela mais apertados, mais longos: estás magrinha, dizia. ela nunca me esqueceu, ela perguntava-me: de quem são estes miúdos? é a maria, o miguel. ela dizia: não tenhas mais nenhum. e ria-se muito alto: ela teve 6. depois ela perguntava-me outra vez: é a maria, o miguel. às vezes falávamos ao telefone e ela dizia-me que o angélico não tinha morrido: vi-o hoje na televisão. ela arrancou-me tantos sorrisos.]
contei-lhe coisas e depois elas entraram: lavaram-na, trocaram os lençóis, ajeitaram-lhe os braços. ela era só mais uma: ela era a minha avó que me fazia bolo de coca-cola. quando elas sairam eu chorei. peguei na mão dela e beijei-a: ela apertou-me os dedos. a força toda naquela mão. será que me ouve? e ali, naquele quarto de hospital, disse coisas que ela nunca me ouviu dizer. disse-lhe que ela tinha sido uma boa avó. que eu gostava muito dela. agradeci-lhe, pedi desculpa: beijei-a na testa. a minha avó: o corpo inerte, a cabeça pesada, um gemido constante, boca aberta, olhos fechados: aquela não era ela. encostei os meus lábios ao ouvido dela: disse-lhe para não ter medo. avó, não tenhas medo: não tenhas medo. ela apertou a minha mão. eu chorei.
ontem a minha avó fez 91 anos e eu cantei-lhe os parabéns.
não sei se ela me ouviu.

[ e hoje quando estava ali parada, com os pés na terra que cobria gente e o vento gelado a bater-me na cara: hoje enquanto todos choravam e remoíam, a cada pá que se enchia de terra, isto que é a condição humana, ouvi-a: o som da sua gargalhada. ela, que se ria de todos, a rir-se de nós. aquele som era o único na minha cabeça: aquela gargalhada.
vou guardá-la para sempre avó.]

2.

nunca lhe ensinei as letras. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o" ou o "u". às vezes ela pergunta: o que é que diz aqui? e eu leio, sem explicar. ela abre os livros e finge que está a ler. e eu ouço, sem corrigir. nunca lhe ensinei as letras: ela tem 3 anos. às vezes as vizinhas perguntam se ela já vai à escola: já sabes escrever o teu nome? e eu penso: ela tem 3 anos. aprendi as letras quando fui para a escola. não antes. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o", ou o "u". a minha mãe nunca me ensinou as letras. ensinou-me coisas que não esqueço: as letras guardou-as a todas. e quando eu fui para a escola a professora ensinou-me as letras. ensinou-me a ler e a escrever. a escrever o meu nome. eu tinha 6 anos. guardo a minha professora no coração: mesmo quando ela não nos sorria eu olhava para ela com respeito, admiração: ela ensinou-me as letras. para mim ela era especial: só uma professora podia ensinar as letras. um dia ela fez-me escrever o L maiúsculo vezes sem conta: às vezes olho para eles, escritos a lápis, cheios de curvas. nos dias de greve ela ensinava-nos as letras no jardim, sentada no chão. quando chegava a casa eu mostrava à minha mãe as letras que a professora me tinha ensinado. sempre gostei delas: as letras.
ontem a maria pediu-me: podes-me ensinar a escrever o meu nome? sorri. disse-lhe que isso era uma coisa muito importante: tens a certeza que queres aprender hoje? ela tinha a certeza. e eu ensinei. hoje ela continuou a praticar: mostrou-me maria muitas vezes. e eu, orgulhosa, dou-lhe os parabéns, digo que está perfeito, dou-lhe um abraço. e depois olho para o papel que tenho nas mãos: as letras que eu não guardei. digo-lhe: agora vai brincar. ela tem 3 anos. eu tinha 6. quero guardar as letras. e as vizinhas têm pressa, e o mundo tem pressa e eu a querer guardar as letras. quero guardá-las: mesmo que todos os outros meninos já saibam todas as letras, mesmo que ela demore mais tempo para fazer o L perfeito. quero que ela me mostre todos os dias as coisas novas que aprendeu: o mundo sem pressa num caderno de linhas. quero que ela guarde no coração: o primeiro dia de escola, todas as letras, a professora que as ensinou.
agora ela tem 3 anos: se ela não me pedir, posso guardá-las.


 3.

quando chamamos o miguel ele responde logo: o que é? ele corre até nós e repete: o que é? quando chamamos a maria ela nunca responde. a maior parte das vezes ela está só a fazer as coisas dela, concentrada. sou -e ele concorda- mais paciente que o pai. ele insiste, chama-a muitas vezes: não me ouviste a chamar? às vezes, ao lado dele, digo-lhe: espera. e ela aparece. às vezes quando ele a chama eu estou ao lado dela e vejo que ela está só a acabar: um gesto, um pensamento, uma palavra. e ele chama outra vez e eu digo: ela já está a ir. e um dia li um texto sobre crianças da idade deles, dizia: quando chamar o seu filho conte devagar até 10. mostrei-lhe e disse-lhe que ia começar a contar, disse-lhe para ele contar também. dizia que a criança só precisa de tempo para parar e processar a informação. e decidi partilhar isto com vocês porque é tão simples e funciona. aqui em casa funcionou. chamo: maria. conto até 10. devagar. ela responde: o que é? digo: maria chega aqui. conto 10 crocodilos. ela aparece: o que é? às vezes temos de repetir, mas é raro. antes em 5 segundos já a estavamos a chamar outra vez: 5 segundos não chega. todos os dias aprendo com eles. contar até 10 também me ajuda a mim a ser mais paciente, a viver mais devagar. ao ritmo deles, como deviamos viver todos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

actividades.



olá, o meu nome é miguel, tenho 2 anos e sou viciado em areia cinética. brinco com ela todos os dias. nunca vou para cama sem brincar com areia antes. às vezes quando acordo a minha mãe encontra areia nos lençóis. sempre que tenho visitas mostro-lhes a areia e obrigo toda a gente a brincar com ela. quando estou em casa, se me quiserem encontrar, eu devo estar na mesa a brincar com areia. o meu sonho era ir passar férias numa praia com areia cinética.